quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A superação do samurai

Que o esporte é impressionante todos nós sabemos. A cada dia que passa, me convenço mais de que as disputas travadas com o devido espírito esportivo podem ser usadas como inspiração para a vida. Um dos esportes que mais me fascinam, sem dúvida, é o rugby. Apesar da aparência truculenta, das jogadas fortes e dos constantes lances de impacto, valores como honra, companheirismo e superação norteiam os praticantes. E isso em todos os níveis de disputa!

Talvez você nem saiba, ou não esteja dando muita bola, mas nesse exato momento está ocorrendo a disputa da Copa do Mundo de Rugby na Inglaterra. Assim como no futebol, o evento acontece a cada 4 anos e chama a atenção de todos os praticantes ao redor do planeta. Aliás, caso não se lembre, há exatos 4 anos escrevi justamente sobre isso, e lembrei que esse esporte ainda cresceria no Brasil, como de fato vem crescendo.

E logo nas primeiras partidas eu pude ver na prática todos os valores que citei anteriormente. O haka neozelandês, que é feito como uma forma de globalizar e mostrar a cultura daquele país, leva todo o espírito guerreiro para dentro do campo. Mas esse clima de guerra em momento algum leva a jogadas desleais ou agressões deliberadas. Pelo contrário, a honra impera acima disso. E não só ao final do embate, mas principalmente durante a partida, percebemos claramente como há respeito entre os atletas mesmo sabendo que um Mundial está em disputa.

Mas hoje eu não poderia falar de outra virtude que não fosse a superação. Imagine você que exista uma equipe que, em toda a sua história, conseguiu apenas uma única vitória na competição. Pois é, essa é a representação do Japão, a simpática ilha do extremo oriente do planeta. Sua única vitória em Copas do Mundo havia sido no longínquo ano de 1991, quando bateu a Seleção de Zimbábue. Zimbábue que, por sinal, nunca mais participou de Copas.

Eu disse "havia sido", por um motivo simples: o Japão conquistou a sua segunda vitória na história da competição. E mais uma vez sobrou para um país africano. Mas dessa vez o alvo foi ninguém menos que a toda-poderosa Seleção da África do Sul, os Springboks, bicampeões mundiais, atualmente ocupando a 3ª colocação no ranking e uma das favoritas ao título. Ter feito uma boa partida seria equivalente ao gol de 2013 feito pela Seleção do Taiti na Copa das Confederações. Mas imagine se o Taiti ganhasse da Espanha no último lance da partida? Imaginou o frisson? Pois é, isso aconteceu em 2015 na Copa do Mundo de Rugby.

O início do jogo foi como esperado: África do Sul pressionando e Japão se defendendo como podia. Naturalmente, era uma questão de tempo até que os sul-africanos abrissem o placar. É aí que entra em cena nosso protagonista: Ayumu Goromaru. O japonês foi o maior pontuador da partida, anotando 24 dos 34 pontos dos nipônicos, com 1 try (5pontos), 2 conversões (2 pontos cada) e nada menos que 5 penais (3 pontos cada). O que seria simplesmente nervosismo por um jogo de estreia se transforma em jogo equilibrado.

Começaram as especulações: "Ora, já sabemos como funciona. Mesmo quando a seleção de menor expressão equilibra, isso não dura muito tempo, a preparação física faz diferença no final". Mas o final do jogo se aproximava e o equilíbrio permanecia. Goromaru fazia o jogo da sua vida. Acertava tudo.

Pra quem não sabe, o rugby é disputado em dois tempos de 40 minutos cada. Completados os 40 minutos, o jogo termina assim que a bola sai de campo, quando o time com a posse da bola faz uma falta ou no caso de alguém marcar pontos. Mais ou menos como acontece em muitas peladas pelo Brasil. Quando o cronômetro apontava o final do tempo de jogo o placar estava 32 a 29 para a África do Sul. Mas o Japão detinha a posse da bola no seu campo de ataque. As duas alternativas possíveis:
-tentar pontuar com um drop goal (um chute direto entre as traves que vale 3 pontos) e arrancar um empate que já seria histórico, ou;
-arriscar um embate físico e tentar um try.

Foi nesse momento que o espírito samurai apareceu. Com 4 minutos de cronômetro estourado, os japoneses consideraram que não tinham mais nada a perder e foram para o tudo ou nada. Goromaru não marcou o ponto da vitória, mas puxou a marcação que deu espaço para a virada de jogo e o try de Karne Hesketh. Após troca de passes, o objetivo. Os pontos. A vitória. A História.

Por ter destruído um jogo em que ninguém esperava nada, por ter levado o Japão à sua segunda vitória em Copas do Mundo, a primeira desde 1991, e por ser contra ninguém menos que a África do Sul, Ayumu Goromaru é o esportista do mês de setembro de 2015.




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