terça-feira, 14 de julho de 2015

Muito além do esporte - Estádio Nacional do Chile


Chi-Chi-Chi! Le-Le-Le! Viva Chile! Esse é o grito de incentivo mais comum ouvido quando a Seleção Chilena entra em campo. Tão marcante quanto esse grito, é o sentimento nacionalista que está entranhado na alma daquele povo. É sabido que poucas nações nutrem um sentimento tão forte quanto eles. Mas nem sempre eles puderam se orgulhar de seu país. De 1973 a 1990, o país viveu um dos regimes militares mais sangrentos que a América Latina já viu, sob o comando do General Augusto Pinochet.



Mas o que tudo isso tem a ver com o esporte? Calma, chegaremos lá. No dia 11 de setembro de 1973, o palácio presidencial foi bombardeado por aviões da força aérea e não demorou muito para ser tomado. O então presidente Salvador Allende, que defendia idéias de esquerda, foi morto durante essa operação, logo após a entrada dos militares no prédio. A versão oficial diz que ele se matou ao ver a chegada da tropa. A violência e a rapidez da operação chamou a atenção, e o que se viu a partir daí não foi muito diferente. Aqueles que eram considerados opositores do regime eram sumariamente condenados à prisão. O fato é que principalmente nos primeiros meses do regime houve muita violência.

 

Como a quantidade de detidos era grande, o local escolhido para reclusão foi o Estádio Nacional de Santiago, que se tornou um verdadeiro campo de concentração. Há relatos de tortura, maus tratos, condições sub-humanas e mortes. O mundo esportivo não via mais o Chile com bons olhos, sendo inclusive boicotado em algumas ocasiões. Apenas 11 anos depois de sediar uma final de Copa do Mundo, o Estádio Nacional de Santiago se tornara palco de cenas lamentáveis, que marcariam para sempre o orgulho de um povo.



Mas o ano de 1990 marcou o fim de uma era de sangue. Após forte pressão popular, Augusto Pinochet anuncia no final dos anos 80 que não seria mais o presidente do país, abrindo a possibilidade de eleições após quase 20 anos no poder. E o eleito foi o professor Patricio Aylwin, que assumiria em 11 de março de 1990.



As cerimônias de posse são até hoje um marco da história do país. E o local escolhido como ponto alto das festividades não poderia ser outro: o Estádio Nacional. Onde antes ecoavam histórias de dor e lágrimas, agora seria transformado em símbolo de luta por um país mais justo e igualitário. Em vez de campo de concentração, salão de festa da democracia. Ao invés de dor, alegria.



Hoje, a saída 8 do estádio se transformou em uma espécie de museu com exposições de fotos e frases de familiares. E isso não se dá por acaso: era esse o local com maior concentração de presos, pois de lá dava para ver um pouco da área externa, e assim poderiam enviar sinais de vida para os familiares que conseguiam se aproximar do lado de fora.



E pode até ter passado despercebido para muito de nós que acompanhamos a atual edição da Copa América, mas exatamente nessa ala onde se concentrava a maioria dos detidos, hoje existe uma frase “Un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro”(um povo sem memória é um povo sem futuro, em tradução livre), justamente em alusão aos acontecimentos do período sangrento e em memória das vítimas torturadas no local. Não são disponibilizados ingressos para o setor, que fica completamente vazio e conservado com as arquibancadas de madeira originais restauradas, dando lugar apenas à memória, para que o mundo todo saiba que o Chile não esconde seus erros passados, mas não pensa em cometê-los no futuro.


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